Em 2021, o Brasil tinha mais unicórnios do que qualquer outro país da América Latina. As fintechs eram o setor mais quente do ecossistema de startups: valuations estratosféricos, rodadas de investimento recordes, contratações em ritmo frenético. Parecia que o setor financeiro tradicional estava prestes a ser completamente disrompido.
Cinco anos depois, o cenário é bem diferente. Algumas das empresas mais celebradas daquele período passaram por demissões em massa, reduções de valuation e mudanças de estratégia que revelam os limites de um modelo de crescimento baseado em capital barato e expansão a qualquer custo.
O que aconteceu?
A resposta curta: a taxa de juros subiu, o capital ficou caro, e os investidores começaram a exigir rentabilidade em vez de crescimento. Empresas que dependiam de capital externo para financiar subsídios ao cliente — cartões sem anuidade, cashback generoso, taxas abaixo do mercado — viram seu modelo de negócios se tornar insustentável.
A resposta mais longa é mais interessante. O setor financeiro brasileiro tem características específicas que tornaram a disrupção mais difícil do que parecia. Os grandes bancos têm relacionamentos de décadas com clientes, acesso a dados que as fintechs não têm, e capacidade de absorver prejuízos por muito mais tempo. Quando decidiram reagir — com produtos digitais próprios, com aquisições de fintechs menores — fizeram isso com recursos que as startups não conseguem igualar.
Isso não significa que as fintechs fracassaram. Algumas se consolidaram como players relevantes. O Nubank é o exemplo mais óbvio — mas é também um caso atípico, com escala e eficiência que poucos conseguiram replicar. A maioria das fintechs que sobreviveu ao inverno o fez encontrando nichos específicos onde os grandes bancos não querem ou não conseguem competir.
O mercado financeiro brasileiro vai continuar mudando. Mas a mudança vai ser mais gradual e mais complexa do que os entusiastas de 2021 previam.