O relatório de sustentabilidade da empresa tinha 120 páginas. Gráficos coloridos, metas ambiciosas, depoimentos de funcionários satisfeitos, projetos sociais fotografados com cuidado. Era, visualmente, impressionante.
Mas quando tentei verificar os dados — cruzar as metas declaradas com resultados auditados, comparar as emissões reportadas com benchmarks do setor — encontrei um labirinto de metodologias diferentes, períodos de referência incompatíveis e indicadores escolhidos a dedo para mostrar progresso.
Essa é a realidade do ESG corporativo no Brasil em 2026: muito discurso, pouca verificabilidade.
Não estou dizendo que todas as empresas estão mentindo. Muitas têm iniciativas genuínas e resultados reais. O problema é que o sistema atual não consegue distinguir de forma confiável entre quem faz e quem apenas comunica.
A regulação está avançando. A CVM publicou novas regras sobre divulgação de informações climáticas para empresas de capital aberto. O Banco Central tem exigido que instituições financeiras incorporem riscos climáticos em seus modelos. Mas a implementação ainda é incipiente e a capacidade de fiscalização é limitada.
Para investidores e consumidores que querem tomar decisões baseadas em critérios de sustentabilidade, o cenário é frustrante. Os dados disponíveis são insuficientes para uma análise rigorosa. As certificações existentes têm qualidade variável. E o greenwashing — a prática de comunicar mais do que se faz — ainda é mais vantajoso do que arriscado para a maioria das empresas.
A solução não é desistir do ESG. É exigir mais rigor: dados auditados por terceiros independentes, metodologias padronizadas, metas com consequências reais. Sem isso, o discurso de sustentabilidade vai continuar sendo, em grande parte, exatamente isso — discurso.